Domicio do Nascimento Junior
 

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   Manejo de pastagens

      PRODUÇÃO ANIMAL NO BIOMA CAMPOS SULINOS
       
  12/8/2008  

Paulo C. de F. Carvalho1, Vivian Fisher2, Davi T. dos Santos3, Andréa M. L., Ribeiro2, Fernando L. F. de Quadros4, Zélia M. S. Castilhos5, César H. E. C. Poli2, Alda L. G. Monteiro6, Carlos Nabinger1, Teresa Cristina M. Genro7, Aino V. A. Jacques8

1 Prof. Adjunto, Deptº de Plantas Forrageiras e Agrometeorologia – UFRGS.
2 Prof. Adjunto, Deptº de Zootecnia – UFRGS.
3 Doutorando em Zootecnia/Plantas Forrageiras – UFRGS.
4 Prof. Adjunto, Deptº de Zootecnia – UFSM.
5 Pesquisadora FEPAGRO.
6 Prof. Adjunto, Setor de Ciências Agrárias – UFPR.
7 Pesquisadora EMBRAPA - CPPSUL
8 Prof. Titular Aposentado, Colaborador convidado, Deptº de Plantas Forrageiras e Agrometeorologia – UFRGS.


1. O Bioma Campos Sulinos: descrição e status de conservação
O Bioma9 Campos compreende 500.000 km2 (latitudes 24o e 35o S), abrangendo o Uruguai, Nordeste da Argentina, Sul do Brasil, e parte do Paraguai (PALLARÉS et al., 2005). Campos se refere a um tipo de vegetação composta predominantemente por gramíneas e outras herbáceas, classificado como Estepe no sistema fitogeográfico internacional, e que alimenta aproximadamente 65 milhões de ruminantes (BERRETA, 2001). A fisionomia
predominante desses campos é herbácea, em relevo de planície com várias espécies de Poaceae, Asteraceae, Cyperaceae, Fabaceae, Rubiaceae, Apiaceae e Verbenaceae (MMA, 2000). A produção animal é uma das principais atividades econômicas do Bioma, uma vez que as pastagens
naturais cobrem aproximadamente 95 % da região. Belas paisagens, com animais pastejando livremente em grandes espaços ao longo do ano, conferem um notável apelo de origem ao produto natural e ao ecoturismo.
A parte brasileira do Bioma é conhecida como Campos Sulinos ou Pampa, e representa 2,07 % (176.496 km2) do território nacional. O seu reconhecimento como Bioma é recente, pois somente a partir de 2004 o Bioma
Campos Sulinos foi desmembrado do Bioma Mata Atlântica. Segundo o IBGE (2005), ele abrange a metade meridional do Estado do Rio Grande do Sul (RS), se delimitando apenas com o Bioma Mata Atlântica na metade norte do Estado (Figura 1). Cabe ressaltar que a denominação oficial do bioma ainda passa por avaliações dos órgãos responsáveis por sua legislação e delimitação
geográfica, podendo sofrer alterações. Atualmente a área reconhecida compreende aproximadamente 63% da área total do Estado. Portanto, para efeito de nomenclatura, o presente texto adotará a expressão Bioma Campos
Sulinos, e o Estado do Rio Grande do Sul (RS) surgirá, em vários momentos ao longo do texto, como sinonímia da área de abrangência deste ecossistema (Figura 2).
Figura 1. Os biomas brasileiros (IBGE, 2005)
Em toda a região predomina um clima subtropical do tipo Cfa, com as estações do ano bem definidas. De forma geral, caracteriza-se por um clima chuvoso, sem período seco sistemático. A precipitação média anual varia entre
1.250 e 1.600 mm. Segundo o IBGE (2005), o Bioma compreende um conjunto ambiental de diferentes litologias e solos, recoberto por fitofisionomias campestres, com tipologia vegetal dominante herbáceo/arbustiva, que recobre
superfícies de relevo aplainado a suavemente ondulado.
Campos Sulinos é reconhecido como sendo um Bioma que contém uma rica biodiversidade. Ele é o habitat de 3.000 plantas vasculares, 385 espécies de pássaros e 90 mamíferos terrestres (BILENCA & MIÑARRO, 2004). A
despeito dos avanços recentes na legislação ambiental, somente 2,23 % dos Campos Sulinos está oficialmente protegido em sete Unidades de Conservação
que compreendem 375.000 ha (BILENCA & MIÑARRO, 2004). Os Campos Sulinos, dentre os Biomas brasileiros, tem recebido menos atenção em comparação aos demais (e.g., Bioma Amazônia, que é motivo de preocupação
mundial). Consequentemente, as ameaças a este Bioma não têm o seu nível suficientemente reconhecido. As suas pastagens naturais constituem a mais importante fonte de alimento para aproximadamente 17 milhões de ruminantes
domésticos e representam mais de 90 % das superfícies pastoris do Bioma. Este recurso natural está em perigo, decrescendo a uma taxa de 135.000 ha por ano (NABINGER et al., 2000). Figura 2. Delimitação oficial do Bioma Campos (IBGE, 2005). Um estudo tri-lateral entre o Brasil, Uruguai e Argentina (BILENCA & MIÑARRO, 2004) revelou que dois são os fenômenos mais preocupantes e ameaçadores a este importante recurso natural. Um deles é a expansão da
fronteira agrícola, representada particularmente pelos cultivos agrícolas anuais como a soja, bem como pelo reflorestamento e o plantio de pastagem. O outro
é o excesso de lotação normalmente empregado no manejo das pastagens naturais (CARVALHO, 2006a). As conseqüências estimadas da degradação do
Bioma são: fragmentação da paisagem, perda de biodiversidade, erosão dos solos, invasão biológica, poluição das águas e degradação dos solos. Dos 14.078 milhões de ha de pastagens naturais em 1970, somente 10.524 milhões
de ha restavam em 1996 (IBGE, 1996). Desde o último censo oficial tem havido uma forte supressão das pastagens naturais pelas lavouras anuais e estimativas recentes estimam que sua superfície esteja atualmente em torno de
9 milhões de hectares, com perda de biodiversidade e de vários serviços prestados pelo ecossistema10 (CARVALHO, 2006a). Os cultivos anuais aumentaram em cinco milhões de ha entre 1985 e 1995-1996, estimando-se que a soja tenha ocupado próximo de 250.000 ha de pastagens naturais
somente em 2002. Em 2005, as indústrias de celulose anunciaram investimentos, com objetivos de plantarem um milhão de ha de Eucalyptus spp. e Acacia spp. nos próximos anos. Segundo BILENCA & MIÑARRO (2004), as pastagens naturais do ecosistema Campos tem decrescido a taxas de 3,6, 7,7 e 11,9 % na Argentina, Uruguai e Brasil, respectivamente. Existem muitos sintomas de degradação e perda de biodiversidade no Bioma Campos Sulinos. Mais de 50 espécies de forrageiras, 16 mamíferos e 38 espécies de pássaros, dentre outros, têm sido classificados recentemente em diferentes níveis de ameaça (MMA, 2005; CARVALHO, 2006a). Outro exemplo é o processo de arenização. Na região sudoeste do RS, no substrato arenito da
Formação Botucatu, estão localizados os areais cujo fenômeno de arenização é explicado a partir da relação entre litologia e dinâmica hídrica, apresentando
processo de ravinamento e voçorocamento como agentes iniciais. Considerado como um fenômeno natural, ele tem aumentado fortemente a partir da metade 10 Os serviços prestados pelos ecossistemas são os vários bens essenciais e os processos naturais que suportam a vida humana e que são derivados dos ecossistemas naturais (Daily
et al., 1997). do século XX. Práticas agrícolas não sustentáveis, como o preparo inapropriado do solo e o superpastejo, têm contribuído para aumentar a taxa na
qual o processo avança, atingindo 5.200 ha em dez diferentes micro-regiões (SUERTEGARAY et al., 2001). A arenização pode ser prevenida pelo uso adequado dos campos que mantenha a cobertura vegetal natural protegendo o solo dos processos erosivos, hídrico e eólico (TRINDADE, 2003). No que diz respeito às pastagens naturais, um dos fenômenos de degradação mais importantes atualmente em curso é a invasão do capim
Anonni (Eragrostis plana), uma gramínea de origem Sul Africana que tem baixa palatabilidade, alta produção de sementes e exibe alelopatia. Ela foi introduzida
acidentalmente por volta de 1940 (ZILLER, 2005) e sua expansão é impressionante, tendo atingido 20.000 ha em 1978, 400.000 em 1993. Atualmente apresenta uma taxa de expansão de 14.000 ha por ano, atingindo uma superfície de quase dois milhões de ha. Este processo, a exemplo de outros, também tem no superpastejo uma grande facilitador, pois elevadas intensidades de pastejo aumentam a pressão de pastejo sobre as espécies preferidas, decrescem a diversidade dos campos, e a cobertura vegetal como
um todo (CARVALHO, 2005), favorecendo a invasão do capim Anonni. Enquanto em alguns Biomas, como o Bioma Amazônia, as discussões ambientais são baseadas na preservação dos recursos naturais, o Bioma Campos Sulinos tem uma função econômica evidente, sendo a alimentação de
herbívoros domésticos a sua principal vocação ecológica e econômica. Neste contexto, todas as iniciativas de conservação deveriam passar pela busca de
uma produção animal sustentável. CARVALHO (2006a) argumentou que as legislações ambientais e aquelas que garantem a oportunidade do acesso à terra aos mais desfavorecidos apresentam enfoques conflituosos, alimentando o dilema conservação versus produção no Bioma Campos Sulinos. Ao estabelecer requerimentos de produtividade para basear iniciativas de reforma
agrária utilizando índices de lotação como medida de produção, o superpastejo é indiretamente fomentado pela legislação, pois ao considerar lotações moderadas como improdutivas, as propriedades que utilizam lotações inferiores àquelas estabelecidas pela legislação são passíveis de desapropriação. Além da taxa de lotação não ser medida de produtividade em pastagens, os índices requeridos pela legislação são incompatíveis com a produção média das
pastagens naturais (CARVALHO, 2006a)
 
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